segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Farol das Conchas, Ilha do Mel, Paranaguá

O farol foi construído em 1872 e faz parte da modernização do Paraná na segunda metade do século XIX, facilitando e garantindo maior segurança para a entrada dos portos de Paranaguá e Antonina, cada vez mais em expansão, tanto em relação ao comércio, como da erva-mate, como na chegada de imigrantes, e já para a futura construção da ferrovia Paranaguá - Curitiba, na década de 1880.

Interessante consultar o documento de 20/02/1862, do Arquivo Público do Paraná, sobre onde deveria ser construído o farol na Ilha do Mel. O local mais propício e escolhido foi o morro das conchas. Tal empreendimento foi concretizado 10 anos de depois.

A década de 1870 pode ser considerada uma época de estabilidade política no Brasil, apesar da crise econômica e de novas ideias geradas pela guerra contra o Paraguai. Período de predomínio dos políticos do Partido Conservador, entre eles, o Barão de Cotegipe, que era Ministro da Marinha na época da construção do farol. E no Paraná, destacava-se a família de Manoel Antônio Guimarães, futuro Visconde de Nácar, de Paranaguá.

 
 
Fotos de Alessandro Cavassin Alves. Ilha do Mel, 12/02/2023.

Reinado - O Senhor D. Pedro II, I.C. O Barão de Cotegipe, Ministro da Marinha, mandou construir este Pharol. Engenheiro Zozimo Barroso. Construtores, P&W MacLellan, Glascom, 1870.

Ao que se percebe, o engenheiro militar cearense Zozimo Braulio Barroso, um especialista em faróis, e que trabalhava também com a empresa escocesa P&W MacLellan, ficou responsável de erigir diversos faróis ao longo da costa brasileira neste período histórico.






domingo, 19 de fevereiro de 2023

Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, Ilha do Mel, Paranaguá, Paraná

A Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, na Ilha do Mel, Paranaguá, defende a entrada do porto desde 1769. Um exemplo do estilo português de defesa no Brasil colonial.

O Incidente Cormorant em 01/07/1850 (ou 29/06/1850) foi um dos episódios mais relevantes que envolveu a fortaleza, quando o navio inglês HMS Cormorant foi atacado a partir dos canhões da Ilha do Mel, porque o mesmo estava a rebocar alguns navios acusados de tráfico de escravizados, aprisionados no porto de Paranaguá, mas sem o consentimento das autoridades locais. Incidente que comento no livro: A Província do Paraná e sua Assembleia Legislativa (2015), na pág. 325, a partir do livro de Davi Carneiro, A história do incidente Cormoran (1950). 

Devido a esse incidente, as autoridades brasileiras logo aprovaram a Lei Eusébio de Queiroz em 04/09/1850 que praticamente extinguiu esse horrendo tráfico da qual o Paraná também era uma das portas de entrada, fazendo com que a fiscalização contra esses traficantes fosse mais eficaz. Eis a expressão: "saiu o tiro pela culatra".

Em visita a esta ilha e o forte em 12/02/2023 pude sentir um pouco da história do Paraná.

 
  
Fotos de Alessandro Cavassin Alves, Ilha do Mel, Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres, Paranaguá, 12/02/2023.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

 


O romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen (Inglaterra, 1775 - 1817), publicado em 1813 (mas pronto já no final do século XVIII), trata da história de famílias inglesas de origem nobre que transitavam entre a vida na área rural e cidades, como a de Londres, mas, principalmente, trata do aspecto moral que envolvia o comportamento dessas famílias, dos pais para com os filhos, dos parentes e amigos, dos vizinhos, das festas, da questão da herança, dos casamentos e seus arranjos, dos soldados, dos criados e, principalmente, do comportamento feminino numa sociedade patriarcal. 

Como o livro traz a história das cinco irmãs Bennet e sua família, a perspectiva feminina é fortemente destacada e, neste sentido, pode-se perceber como a autora vai demonstrando como era ser mulher nesta sociedade e, ao mesmo tempo, as possibilidades de reflexão frente a esta situação de imposição de determinadas normas sociais a elas. Daí o destaque para a personagem Elizabeth Bennet, que apesar dos cuidados para que uma determinada ordem moral prevalecesse, ela insinua para outros valores, como a possibilidade da liberdade de escolhas por parte dela.

Destaco esse livro porque, quando se estuda a história dos séculos XVIII e XIX, em especial, das famílias de classe alta, esse romance pode apresentar de forma bastante clara como era o ambiente e como viviam as pessoas neste período histórico e como era a situação feminina, tendo como referência a Inglaterra, mas que não deixa de ser uma realidade também brasileira.

Outro ponto bastante importante do romance é a questão estratégica do casamento, condição da manutenção de um status social, muito mais importante do que a questão de que o casamento seria a realização da felicidade da mulher, da qual Jane Austen procura salientar, mas demonstrando essa dubiedade, casar para ser feliz ou casar por interesses econômicos.

sábado, 28 de maio de 2022

Senhor das Moscas, de William Golding

        Terminando o livro Senhor das Moscas, do inglês William Golding, publicado em 1954, muitos pontos podem ser aproveitados para se pensar Sociologia e Filosofia, afinal, esta narrativa fictícia contada por Golding apresenta aspectos sobre a natureza humana e sobre nossa organização em sociedade.

        Senhor das Moscas nos faz pensar nas teorias Contratualistas de Hobbes, Locke e Rousseau, quando os meninos vão se organizando na ilha deserta; nos regimes políticos, como democracia e ditadura; mas, principalmente, na individualidade versus a opressão do grupo sobre os indivíduos; o grupo que cega as ações de seus membros levando a atos como a morte de dois meninos e a perseguição de Ralph; é a possibilidade da reflexão sobre a natureza humana, o que somos nós, enquanto pessoas em nossa individualidade e como membros de uma sociedade.

        Um livro muito instigante e que sua história serve de exemplo para muitos temas de Sociologia e Filosofia.

        Para a questão histórica, o ano de 1954, para os europeus era um recomeço frente a barbárie das duas grandes guerras. E nada melhor para se compreender essa barbárie, lendo Senhor das Moscas.

Capa do livro: Senhor das Moscas, de William Golding
https://www.amazon.com.br/Senhor-das-moscas-William-Golding/dp/8579622875


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Joseph Conrad - O coração das trevas e Nostromo

         Ler Joseph Conrad (1857-1924) (Józef Teodor Konrad Korzeniowski), este autor nascido na cidade de Berdychiv do atual país Ucrânia e de pais poloneses, que foi viver na Inglaterra quando jovem, sendo marujo por quase 20 anos, viajando o mundo, nos ajuda a pensar, através de sua literatura, também, sobre o período histórico do final do século XIX e início do século XX da qual o autor estava inserido, além de sua grande sensibilidade sobre a natureza humana e suas reflexões sobre a chamada civilização que se desenvolvia. 

Capa da editora L&PM Pocket, 2018

        Para o caso de "O coração das trevas" (Heart of Darkness), publicado em 1902 (já escrito em 1899), retrata o momento histórico do chamado neocolonialismo europeu, para esse caso, sobre o continente africano. A partir da história contada pelo personagem navegador inglês, chamado Charlie Marlow, que, sem pretensões de ser uma crítica social devido às características do próprio personagem, um homem simples e que estava disposto a enfrentar uma grande aventura que o levou ao "coração da África", mas que, sua observação, sua história sobre essa aventura, se torna relevante sobre como o neocolonialismo na região do rio Congo era cruel, desumano, assim como todo processo de exploração, vendo o "coração das trevas". E, ao mesmo tempo, a percepção de como ingleses ou belgas na região, entre outros europeus (inclusive o próprio personagem Marlow), neste período histórico, viam as culturas africanas e como tratavam mal as pessoas que lá viviam. 
        O leitor de "O coração das trevas" vai percebendo, pela história que Marlow vai relatando, todo um ambiente de trevas, tanto no sentido da natureza selvagem, exuberante e impenetrável (o que nos lembra a própria floresta amazônica), mas também a situação de opressão e exploração dos povos da região, isto tudo pela busca insaciável do "precioso marfim" pelas companhias europeias, entre outras riquezas, da qual o personagem Sr. Kurtz é o representante. 
        Um dos perigos ao ler esse livro é considerar como única a imagem dos povos desta região da África como a descrita por Joseph Conrad, o que se justifica as críticas realizadas por estudos pós-coloniais, iniciadas por Chinua Achebe, a partir de1975. A África é um continente de muitas culturas, de diferentes histórias, enfim, que merecem ser pensadas. Conrad nos traz apenas um pequeníssimo aspecto dessa ampla região.


Capa da editora Record, 1983

        E o romance "Nostromo", publicado em 1904, sobre um fictício país latino-americano denominado de Costaguana, na qual Joseph Conrad descreve sua geografia, sua história política recente, e seus personagens, sendo o principal, Nostromo. Tal romance, entretanto, pode ser visto como preconceituoso aos povos da América do Sul, pela forma como é descrita as instabilidades políticas e a cultura local, como uma região atrasada, imersa na corrupção, e relatados a partir de personagens europeus. Novamente, assim como em "O coração das trevas", são europeus apresentando, a partir de sua visão de mundo, o que se passa em Costaguana.
        Historicamente, Costaguana pode, sim, lembrar as repúblicas latino-americanas em suas reais instabilidades políticas, como o Paraguai, mesmo sem acesso ao mar descrito no romance, ou o Uruguai, mesmo sem uma grande cadeia de montanha, ou outra região rica em prata, como Bolívia ou Peru, ou mesmo o Brasil e suas riquezas minerais. As lutas entre grupos políticos em Costaguana são as lutas políticas históricas destas repúblicas. As constantes ditaduras, geradas por deposição de governos, também ditatoriais, são uma constante.
        Enfim, são os países latino-americanos se estruturando no início do século XX, com suas constantes brigas internas, e ainda, tendo que enfrentar ou conviver, igualmente, já por séculos, com os interesses e a exploração dos europeus e norte-americanos sobre as riquezas desse continente. Por exemplo, a exploração da mina de San Tomé em Costaguana em que toda a prata vai para capitalistas nos Estados Unidos. A mina de prata em Costaguana é o centro do romance, com seu dono (a Concessão Gould), capatazes, padre e os infindáveis e miseráveis trabalhadores, "Josés, Manuéis e Ignacios" (p.100), e envolto em corrupção política local para se conseguir explorar esse minério, que por sua vez, enriquece grandes capitalistas fora de Costaguana.
        Da mesma forma, é interessante observar aspectos como a construção de uma ferrovia em Costaguana, que certamente nos faz pensar, neste período histórico, nas ferrovias construídas por empresas estrangeiras em todo o continente, como a Brazil Railway Company, e a ferrovia Rio Grande do Sul - São Paulo que gerou a guerra do Contestado, em 1912. E as explorações infindáveis das riquezas minerais, como a prata.
        Mas, ao mesmo tempo, o romance pode ser interpretado como uma adaptação do livro "O Príncipe" de Maquiavel, e que, portanto, equivale à política como um todo, não apenas para os países da América Latina, mas para a ação política em geral, com políticos em constantes lutas para conquistar e manter o poder, surgindo ditadores que se dizem democráticos, líderes da "pior espécie" que querem "salvar seu país", enfim, de uma natureza humana egoísta, voltada aos interesses pessoais e às honrarias que o poder traz consigo. Afinal, o que me levou a ler este romance foi a série de TV - Colônia, em que o livro "Nostromo" é citado, provavelmente querendo sugerir que a política que acontece num ambiente distópico nos Estados Unidos, retratado pela série de TV, seria a mesma descrita em Costaguana por Conrad ou em qualquer outro lugar do mundo.

        Algumas momentos do romance: 
        "A Concessão Gould era símbolo de justiça abstrata. Que os céus desabassem. (...) A Concessão Gould era um fator importante nas finanças do país, e, além disso, para os orçamentos privados de muitas autoridades. Era tradicional. Era sabido. Era comentado. Era crível. Todo ministro do Interior recebia um salário da mina de San Tomé" (p. 301).
        Como as palavras tem significados diversos em Costaguana: "Liberdade, democracia, patriotismo, governo... todas elas têm um gosto de loucura e homicídio" (p.305).

Referências
CONRAD, Joseph. O coração das trevas. Joseph Conrad Korzeniowski. Porto Alegre: L&PM, 2018.
CONRAD, Joseph. Nostromo. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Introdução e notas de Martin Seymour-Smith. Rio de Janeiro: Editora Record, 1983. Primeira edição, 1904.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Literatura e Genealogia - O Tempo e o Vento de Erico Verissimo

 




       O romance "O Tempo e o Vento" de Erico Verissimo é uma viagem pela história da família Terra Cambará e ao mesmo tempo pela história do Brasil meridional, da fronteira sul desse enorme país e de suas inúmeras guerras e da cultura local.
        O meu interesse sociológico ao ler este romance era como pensar a história de uma família ao longo dos séculos, tendo como referência, também, a história e a cultura da região ou do país em que a família vive. E Erico Verissimo realiza isso de forma fantástica, através da literatura, com personagens fictícios, mesclando com acontecimentos e personagens reais da história do Brasil.
       E a genealogia é fundamental na construção dessa história, afinal, as gerações vão passando, e a história das famílias vão sendo formadas. Para esse caso, uma família de origem paulista, na qual foi lhe concedida uma sesmaria na província de São Pedro, atual Rio Grande do Sul, e a partir da ocupação dessa sesmaria pela família Terra, toda a história vai se desenvolvendo, tendo como marco as guerras que ocorrem na região sul do Brasil, entre elas, a revolução federalista, de 1893.



        A genealogia da família Terra Cambará ajuda a entender o desenvolvimento do Brasil, a pensar na questão da mobilidade social, como estuda o sociólogo francês Daniel Bertaux.




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Livros sobre a História do Brasil no século XIX

Acredito ser muito positivo como livros de divulgação da História do Brasil vêm tomando força e sendo lidos por nós brasileiros, em especial, por estudantes e professores e por possuírem grande circulação, chegando assim a muitas pessoas. 
Gostaria de salientar os livros de Laurentino Gomes. A partir destas leituras, cada leitor vai entendendo melhor seu país e aprofundando temas que vão lhe interessando. Para o meu caso, ajudando a pensar a história do Vale do Ribeira paranaense.
E gostei muito como o próprio autor destaca na frase de dedicatória no livro 1822: "A todos os professores de História do Brasil, no seu trabalho anônimo de explicar as raízes de um país sem memória". Enfim, como é fundamental ensinarmos a história de nosso país, as nossas raízes, as nossas memórias e a história de nossa região, de nossa família, a minha e a sua história.

Acabei lendo a seguinte edição: GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009.

Acabei lendo a seguinte edição: GOMES, Laurentino. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

 

E acabei lendo: GOMES, Laurentino. Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, volume 1. 1ª ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. Inclusive com dedicatória do próprio autor e sendo um presente do Professor de História Marcelo Fitz, meu amigo.

Também destaco o livro de Patrick Wilcken, Império a deriva. A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821, tradução Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Objetiva, 2010. O autor é um australiano radicado em Londres e que passou longos períodos no Rio de Janeiro. Estar no Brasil certamente fez com que Patrick Wilcken se encantasse com a nossa história para assim realizar esta interessante pesquisa sobre um período crucial de nossa formação. A capa é parte de um quadro de Jean-Baptiste Debret, que retratou o Brasil no século XIX, de uma família senhorial no Rio de Janeiro.

Outra história do século XIX é a biografia da Condessa de Barral (Luísa Margarida Portugal e Barros), baiana, filha de um senhor de engenho que proporcionou educação para seus filhos. Livro escrito por Mary Del Priore e publicado também pela Objetiva. Biografias também são importantes para entendermos contextos históricos e, para este caso, a interessante vida de Luísa.