sábado, 18 de fevereiro de 2023

Orgulho e Preconceito, de Jane Austen

 


O romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen (Inglaterra, 1775 - 1817), publicado em 1813 (mas pronto já no final do século XVIII), trata da história de famílias inglesas de origem nobre que transitavam entre a vida na área rural e cidades, como a de Londres, mas, principalmente, trata do aspecto moral que envolvia o comportamento dessas famílias, dos pais para com os filhos, dos parentes e amigos, dos vizinhos, das festas, da questão da herança, dos casamentos e seus arranjos, dos soldados, dos criados e, principalmente, do comportamento feminino numa sociedade patriarcal. 

Como o livro traz a história das cinco irmãs Bennet e sua família, a perspectiva feminina é fortemente destacada e, neste sentido, pode-se perceber como a autora vai demonstrando como era ser mulher nesta sociedade e, ao mesmo tempo, as possibilidades de reflexão frente a esta situação de imposição de determinadas normas sociais a elas. Daí o destaque para a personagem Elizabeth Bennet, que apesar dos cuidados para que uma determinada ordem moral prevalecesse, ela insinua para outros valores, como a possibilidade da liberdade de escolhas por parte dela.

Destaco esse livro porque, quando se estuda a história dos séculos XVIII e XIX, em especial, das famílias de classe alta, esse romance pode apresentar de forma bastante clara como era o ambiente e como viviam as pessoas neste período histórico e como era a situação feminina, tendo como referência a Inglaterra, mas que não deixa de ser uma realidade também brasileira.

Outro ponto bastante importante do romance é a questão estratégica do casamento, condição da manutenção de um status social, muito mais importante do que a questão de que o casamento seria a realização da felicidade da mulher, da qual Jane Austen procura salientar, mas demonstrando essa dubiedade, casar para ser feliz ou casar por interesses econômicos.

sábado, 28 de maio de 2022

Senhor das Moscas, de William Golding

        Terminando o livro Senhor das Moscas, do inglês William Golding, publicado em 1954, muitos pontos podem ser aproveitados para se pensar Sociologia e Filosofia, afinal, esta narrativa fictícia contada por Golding apresenta aspectos sobre a natureza humana e sobre nossa organização em sociedade.

        Senhor das Moscas nos faz pensar nas teorias Contratualistas de Hobbes, Locke e Rousseau, quando os meninos vão se organizando na ilha deserta; nos regimes políticos, como democracia e ditadura; mas, principalmente, na individualidade versus a opressão do grupo sobre os indivíduos; o grupo que cega as ações de seus membros levando a atos como a morte de dois meninos e a perseguição de Ralph; é a possibilidade da reflexão sobre a natureza humana, o que somos nós, enquanto pessoas em nossa individualidade e como membros de uma sociedade.

        Um livro muito instigante e que sua história serve de exemplo para muitos temas de Sociologia e Filosofia.

        Para a questão histórica, o ano de 1954, para os europeus era um recomeço frente a barbárie das duas grandes guerras. E nada melhor para se compreender essa barbárie, lendo Senhor das Moscas.

Capa do livro: Senhor das Moscas, de William Golding
https://www.amazon.com.br/Senhor-das-moscas-William-Golding/dp/8579622875


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Joseph Conrad - O coração das trevas e Nostromo

         Ler Joseph Conrad (1857-1924) (Józef Teodor Konrad Korzeniowski), este autor nascido na cidade de Berdychiv do atual país Ucrânia e de pais poloneses, que foi viver na Inglaterra quando jovem, sendo marujo por quase 20 anos, viajando o mundo, nos ajuda a pensar, através de sua literatura, também, sobre o período histórico do final do século XIX e início do século XX da qual o autor estava inserido, além de sua grande sensibilidade sobre a natureza humana e suas reflexões sobre a chamada civilização que se desenvolvia. 

Capa da editora L&PM Pocket, 2018

        Para o caso de "O coração das trevas" (Heart of Darkness), publicado em 1902 (já escrito em 1899), retrata o momento histórico do chamado neocolonialismo europeu, para esse caso, sobre o continente africano. A partir da história contada pelo personagem navegador inglês, chamado Charlie Marlow, que, sem pretensões de ser uma crítica social devido às características do próprio personagem, um homem simples e que estava disposto a enfrentar uma grande aventura que o levou ao "coração da África", mas que, sua observação, sua história sobre essa aventura, se torna relevante sobre como o neocolonialismo na região do rio Congo era cruel, desumano, assim como todo processo de exploração, vendo o "coração das trevas". E, ao mesmo tempo, a percepção de como ingleses ou belgas na região, entre outros europeus (inclusive o próprio personagem Marlow), neste período histórico, viam as culturas africanas e como tratavam mal as pessoas que lá viviam. 
        O leitor de "O coração das trevas" vai percebendo, pela história que Marlow vai relatando, todo um ambiente de trevas, tanto no sentido da natureza selvagem, exuberante e impenetrável (o que nos lembra a própria floresta amazônica), mas também a situação de opressão e exploração dos povos da região, isto tudo pela busca insaciável do "precioso marfim" pelas companhias europeias, entre outras riquezas, da qual o personagem Sr. Kurtz é o representante. 
        Um dos perigos ao ler esse livro é considerar como única a imagem dos povos desta região da África como a descrita por Joseph Conrad, o que se justifica as críticas realizadas por estudos pós-coloniais, iniciadas por Chinua Achebe, a partir de1975. A África é um continente de muitas culturas, de diferentes histórias, enfim, que merecem ser pensadas. Conrad nos traz apenas um pequeníssimo aspecto dessa ampla região.


Capa da editora Record, 1983

        E o romance "Nostromo", publicado em 1904, sobre um fictício país latino-americano denominado de Costaguana, na qual Joseph Conrad descreve sua geografia, sua história política recente, e seus personagens, sendo o principal, Nostromo. Tal romance, entretanto, pode ser visto como preconceituoso aos povos da América do Sul, pela forma como é descrita as instabilidades políticas e a cultura local, como uma região atrasada, imersa na corrupção, e relatados a partir de personagens europeus. Novamente, assim como em "O coração das trevas", são europeus apresentando, a partir de sua visão de mundo, o que se passa em Costaguana.
        Historicamente, Costaguana pode, sim, lembrar as repúblicas latino-americanas em suas reais instabilidades políticas, como o Paraguai, mesmo sem acesso ao mar descrito no romance, ou o Uruguai, mesmo sem uma grande cadeia de montanha, ou outra região rica em prata, como Bolívia ou Peru, ou mesmo o Brasil e suas riquezas minerais. As lutas entre grupos políticos em Costaguana são as lutas políticas históricas destas repúblicas. As constantes ditaduras, geradas por deposição de governos, também ditatoriais, são uma constante.
        Enfim, são os países latino-americanos se estruturando no início do século XX, com suas constantes brigas internas, e ainda, tendo que enfrentar ou conviver, igualmente, já por séculos, com os interesses e a exploração dos europeus e norte-americanos sobre as riquezas desse continente. Por exemplo, a exploração da mina de San Tomé em Costaguana em que toda a prata vai para capitalistas nos Estados Unidos. A mina de prata em Costaguana é o centro do romance, com seu dono (a Concessão Gould), capatazes, padre e os infindáveis e miseráveis trabalhadores, "Josés, Manuéis e Ignacios" (p.100), e envolto em corrupção política local para se conseguir explorar esse minério, que por sua vez, enriquece grandes capitalistas fora de Costaguana.
        Da mesma forma, é interessante observar aspectos como a construção de uma ferrovia em Costaguana, que certamente nos faz pensar, neste período histórico, nas ferrovias construídas por empresas estrangeiras em todo o continente, como a Brazil Railway Company, e a ferrovia Rio Grande do Sul - São Paulo que gerou a guerra do Contestado, em 1912. E as explorações infindáveis das riquezas minerais, como a prata.
        Mas, ao mesmo tempo, o romance pode ser interpretado como uma adaptação do livro "O Príncipe" de Maquiavel, e que, portanto, equivale à política como um todo, não apenas para os países da América Latina, mas para a ação política em geral, com políticos em constantes lutas para conquistar e manter o poder, surgindo ditadores que se dizem democráticos, líderes da "pior espécie" que querem "salvar seu país", enfim, de uma natureza humana egoísta, voltada aos interesses pessoais e às honrarias que o poder traz consigo. Afinal, o que me levou a ler este romance foi a série de TV - Colônia, em que o livro "Nostromo" é citado, provavelmente querendo sugerir que a política que acontece num ambiente distópico nos Estados Unidos, retratado pela série de TV, seria a mesma descrita em Costaguana por Conrad ou em qualquer outro lugar do mundo.

        Algumas momentos do romance: 
        "A Concessão Gould era símbolo de justiça abstrata. Que os céus desabassem. (...) A Concessão Gould era um fator importante nas finanças do país, e, além disso, para os orçamentos privados de muitas autoridades. Era tradicional. Era sabido. Era comentado. Era crível. Todo ministro do Interior recebia um salário da mina de San Tomé" (p. 301).
        Como as palavras tem significados diversos em Costaguana: "Liberdade, democracia, patriotismo, governo... todas elas têm um gosto de loucura e homicídio" (p.305).

Referências
CONRAD, Joseph. O coração das trevas. Joseph Conrad Korzeniowski. Porto Alegre: L&PM, 2018.
CONRAD, Joseph. Nostromo. Tradução de Donaldson M. Garschagen. Introdução e notas de Martin Seymour-Smith. Rio de Janeiro: Editora Record, 1983. Primeira edição, 1904.



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Literatura e Genealogia - O Tempo e o Vento de Erico Verissimo

 




       O romance "O Tempo e o Vento" de Erico Verissimo é uma viagem pela história da família Terra Cambará e ao mesmo tempo pela história do Brasil meridional, da fronteira sul desse enorme país e de suas inúmeras guerras e da cultura local.
        O meu interesse sociológico ao ler este romance era como pensar a história de uma família ao longo dos séculos, tendo como referência, também, a história e a cultura da região ou do país em que a família vive. E Erico Verissimo realiza isso de forma fantástica, através da literatura, com personagens fictícios, mesclando com acontecimentos e personagens reais da história do Brasil.
       E a genealogia é fundamental na construção dessa história, afinal, as gerações vão passando, e a história das famílias vão sendo formadas. Para esse caso, uma família de origem paulista, na qual foi lhe concedida uma sesmaria na província de São Pedro, atual Rio Grande do Sul, e a partir da ocupação dessa sesmaria pela família Terra, toda a história vai se desenvolvendo, tendo como marco as guerras que ocorrem na região sul do Brasil, entre elas, a revolução federalista, de 1893.



        A genealogia da família Terra Cambará ajuda a entender o desenvolvimento do Brasil, a pensar na questão da mobilidade social, como estuda o sociólogo francês Daniel Bertaux.




segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Livros sobre a História do Brasil no século XIX

Acredito ser muito positivo como livros de divulgação da História do Brasil vêm tomando força e sendo lidos por nós brasileiros, em especial, por estudantes e professores e por possuírem grande circulação, chegando assim a muitas pessoas. 
Gostaria de salientar os livros de Laurentino Gomes. A partir destas leituras, cada leitor vai entendendo melhor seu país e aprofundando temas que vão lhe interessando. Para o meu caso, ajudando a pensar a história do Vale do Ribeira paranaense.
E gostei muito como o próprio autor destaca na frase de dedicatória no livro 1822: "A todos os professores de História do Brasil, no seu trabalho anônimo de explicar as raízes de um país sem memória". Enfim, como é fundamental ensinarmos a história de nosso país, as nossas raízes, as nossas memórias e a história de nossa região, de nossa família, a minha e a sua história.

Acabei lendo a seguinte edição: GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009.

Acabei lendo a seguinte edição: GOMES, Laurentino. 1822: como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil, um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

 

E acabei lendo: GOMES, Laurentino. Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares, volume 1. 1ª ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. Inclusive com dedicatória do próprio autor e sendo um presente do Professor de História Marcelo Fitz, meu amigo.

Também destaco o livro de Patrick Wilcken, Império a deriva. A Corte Portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821, tradução Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, Objetiva, 2010. O autor é um australiano radicado em Londres e que passou longos períodos no Rio de Janeiro. Estar no Brasil certamente fez com que Patrick Wilcken se encantasse com a nossa história para assim realizar esta interessante pesquisa sobre um período crucial de nossa formação. A capa é parte de um quadro de Jean-Baptiste Debret, que retratou o Brasil no século XIX, de uma família senhorial no Rio de Janeiro.

Outra história do século XIX é a biografia da Condessa de Barral (Luísa Margarida Portugal e Barros), baiana, filha de um senhor de engenho que proporcionou educação para seus filhos. Livro escrito por Mary Del Priore e publicado também pela Objetiva. Biografias também são importantes para entendermos contextos históricos e, para este caso, a interessante vida de Luísa.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Literatura e Sociologia

Certamente podemos compreender melhor a sociedade em que vivemos, ou uma outra cultura, através da literatura. Da mesma forma, a Sociologia, enquanto ciência, utilizando de metodologias, conceitos e teorias, nos ajuda a entender o mundo social da qual fazemos parte.

Assim, Literatura e Sociologia, portanto, podem ser complementares.

Quando terminei a leitura de "Caminhos cruzados", de Erico Verissimo, foi possível pensar nas diferentes condições sociais narradas pelo autor, através de seus diferentes personagens, isso devido a fatos sociais que os envolvem, num curto espaço de tempo de cinco dias (sábado, domingo, segunda, terça e quarta-feira), e na qual seus caminhos se cruzam, apesar das diferenças sociais e culturais, e a partir da grande cidade de Porto Alegre, na década de 1930 (o livro foi publicado em 1934). 

As diferentes condições sociais dos personagens do romance, nos fazem pensar em nossa condição social real, em nossa história cotidiana, por exemplo, no que pode nos acontecer ou o que podemos fazer num espaço de cinco dias, a partir da realidade que estamos inseridos. Da mesma forma, podemos pensar no que pode acontecer, em cinco dias, com os jovens sem emprego e drogados que passam pela minha rua diariamente; das famílias pobres e trabalhadoras do bairro;  da senhora aposentada que vive de um salário mínimo com sua filha trabalhadora; do clérigo da igreja; do casal que enriqueceu com seus negócios imobiliários, e tudo isso, numa mesma cidade; e ainda, o que cada um de nós irá ler, assistir e aprender; e, igualmente, estamos constantemente nos encontrando, uns aos outros, em atividades religiosas, nas escolas, no trânsito, na associação, numa festa, pelo trabalho, pela prestação de serviços, no comércio, e mesmo pela violência, enfim, os "caminhos cruzados", a que Erico Verissimo nomeia seu romance.

Voltando à Sociologia e sua relação com "Caminhos cruzados": como não observar as classes sociais, em termos econômicos, e suas possibilidades materiais de vida; a questão de gênero, em especial, o papel da mulher na sociedade da década de 1930; a questão moral, do comportamento, da alegria e tristeza, independente da fartura ou miséria; da questão cultural em cada família; do acesso à cultura erudita; entre tantos outros conceitos. Enfim, as relações sociais acontecem e estabelecem conexões, formando um todo. Quanto mais ciente destas conectividades, de suas possibilidades, de minhas possibilidades, melhor entendo o mundo social da qual estou inserido.

Enfim, como professor de Sociologia (no romance existe um personagem professor - não gostaria de ser como ele), procuro pensar como utilizar de um livro interessantíssimo, como "Caminhos cruzados" e sua história fictícia, com a realidade da qual estamos inseridos e que precisamos compreender melhor e, igualmente, utilizando dos conceitos sociológicos.

Historicamente, também, é possível pensar como foi a vida na década de 1930 nas diferentes cidades brasileiras, como Curitiba, como Itaperuçu, com seus personagens reais, em suas angústias e conquistas, em suas possibilidades culturais, com seus bens materiais etc.

Referência Bibliográfica:

VERISSIMO, Erico. Caminhos cruzados; ensaio introdutório de Mozart Pereira Soares. 21ª ed. Porto Alegre, Globo, 1978.

Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro

O presente texto deu origem a dois trabalhos, que foram apresentados no: 20º Congresso Brasileiros de Sociologia, como título: "A metodologia de pesquisa genealogia social utilizada na Sociologia e presente na Literatura" (2021), e no XII Seminário de Pesquisa - Teoria Literária, da Uniandrade, com o título: "A genealogia na Literatura e sua relação com a Sociologia" (2020).


Gostaria de compartilhar algumas impressões sobre o romance de João Ubaldo Ribeiro, Viva o povo brasileiro, publicado em 1984, período histórico de véspera do fim da ditadura militar no Brasil.

Destaco a interessante mistura de fatos históricos com o desenrolar da vida dos personagens criados por João Ubaldo Ribeiro. Por exemplo, a presença holandesa na Bahia no século XVII, o regime senhorial, as fazendas e a pérfida escravidão, os indígenas, os reis portugueses, a Igreja católica e os padres, as reduções jesuíticas e sua expulsão em 1759, o Marquês de Pombal, a Independência do Brasil, 1822, a visita do Imperador D. Pedro I e a Imperatriz Leopoldina na Bahia em março de 1826, sendo que em dezembro Leopoldina vem a falecer (viagem fatídica para Leopoldina, em especial pela presença da Titília no mesmo barco e, logo em outubro, ela recebe o título de Marquesa de Santos); o período regencial e suas revoltas, como a revolta dos malês, em Salvador, Bahia, 1835 (revolta que merece muita atenção no romance), a Sabinada (1837-1838, também na Bahia), a guerra dos Farrapos, 1835 a 1845, a maioridade de D. Pedro II, a guerra do Paraguai, 1864 a 1870, a guerra de Canudos, 1896 a 1897; (enfim, as revoltas citadas têm um aspecto central no desenvolvimento do romance), sobre o exército brasileiro, a proclamação da República, 1889, a era Vargas e a ditadura civil-militar; entre tantos outros fatos que o leitor pode encontrar, em especial a partir do local em que é ambientado a trama, na ilha de Itaparica, Bahia (ilha que também foi palco de uma das batalhas da independência, em janeiro de 1823). 
Como visto, o romance perpassa um longo período da história brasileira, entre os séculos XVII ao XX e a consequente formação do povo brasileiro. E, o paradoxo, do o povo brasileiro a sobreviver e a viver, por vezes, independente desses "grandes acontecimentos", como se não fizesse parte desta história oficial ou dela se enquadrasse, em especial quando derrotados.
Mas, o que gostaria de destacar é a questão genealógica presente no romance. A genealogia é fundamental para se compreender a longa história dos personagens e, portanto, do próprio Brasil.
Destaca-se a genealogia da ampla família brasileira do "Caboco Capiroba", filho de mãe índia e pai preto fugido que a aldeia acolheu; Capiroba é comedor de carne branca, em especial, holandês, de muitas mulheres e muitas filhas, capturado e morto na ilha de Itaparica, Bahia, em 1647, por fugir da redução e por insubordinação. Sua filha mais velha, Vu, que cuidava de um prisioneiro do pai, o holandês Heike Zernike, denominado Sinique, fica grávida do mesmo. Em 1721 nasce Dadinha, que viverá 100 anos, gangana, sua mãe foi vendida antes de desmamar, seu pai era negro, escravo, baleneiro, tinha os olhos claros, morreu no seu nascimento, provável filho de Sinique e Vu. Dadinha, bisneta do Caboco Capiroba, tem um filho temporão, Turíbio Cafubá, que tem muitos filhos e com muitas mulheres. Este filho temporão, provavelmente, teria como pai o negro Darissa da Bissínia, chegado entre 1770 ou 80, também insubordinado. Turíbio e Roxinha vão ter a filha Vevé, ou Daê ou Naê, chamada de Venância, menina linda, com a marca de estrela na testa, marca da família a gerações, estuprada pelo barão de Pirapuama, Perilo Ambrósio Góes Farinha, dono de fazendas e escravos em Itaparica, seu dono. Nasce Maria da Fé ou Dafé que, posteriormente, vê a mãe morrer por ter de defendê-la de estupro. Maria da Fé foi criada pelo negro Leléu (Leovigildo), que possui negócio próprio, dá educação a Maria em Salvador. Maria revolta-se com a vida, com o sistema, e se torna líder de um bando no século XIX, perseguida pelo governo, mito entre o povo, insubordinada, e tem um caso com o coronel do Exército, Patrício Macário, da qual nasce o filho Lourenço que continua as lutas sociais da mãe.
Enfim, a genealogia do povo brasileiro, sofrido, sem sobrenome, a superar as mazelas que lhes são impostas por uma elite econômica e intelectual extremamente preconceituosa. Mas, de uma força incrível.
Daí, paralelamente, a genealogia de Amleto Ferreira, o filho da negra professora Jesuína Ferreira (preceptora de Dafé) e do inglês John ou Henrique; Amleto era guarda-livros do barão de Pirapuama, enriquece com o seu trabalho e suas trapaças nos negócios; Amleto, mestiço, poderia ter sido o elemento novo na história brasileira (inclusive ele vê a força de sua gente), mas infelizmente prefere repetir os preconceitos e as atitudes racistas da elite escravocrata, prefere ser "branco", e compra um sobrenome, digno de sua origem: Amleto Henrique Nobre Ferreira-Dutton, quer embranquecer; é o novo sobrenome da família; e ele tem no casamento e no compadrio com os ricos, os elementos chaves para sua ascensão social e de seus filhos; e sua família rica chega ao século XX, muda-se para o Rio de Janeiro e para São Paulo, mas com os mesmos preconceitos do século anterior, e registrando sua genealogia orgulhosamente em livro (mas, adaptando a genealogia a seus interesses).
Exceção ao centenário filho de Amleto, Patrício Macário, coronel do Exército, falecido em Itaparica em 1939, guardião da Canastra, dos segredos da Irmandade, do Espírito do Homem, amante de Dafé e da comida baiana, aberto ao conhecimento que vem do povo brasileiro.
Enfim, tantas outras histórias maravilhosas ao longo do livro e que proporcionam reflexões para que possamos nos entender enquanto brasileiros e sermos menos preconceituosos. E a olhar para a nossa história a partir de seus personagens. De encontrar nossa genealogia. E cuidar ou admirar a mariposa curuquerê que de repente pousa em cada um de nós.
Por Alessandro Cavassin Alves

Referência
RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o povo brasileiro. 5ªed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. Edição de bolso, 790 p.